Editorial | Festa pública não é comitê eleitoral
29/08/2026, às 19h08
Dinheiro público paga a festa. O trio elétrico que puxa a cavalgada está adesivado com propaganda eleitoral. Em cima dele estão o prefeito e seus candidatos, ao lado de uma grande bandeira de campanha. O prefeito pega o microfone e anuncia os números eleitorais: “#@%$&” e “@#$%”.
Foi assim que a cavalgada abriu a Expoapi neste sábado (29), em Piranhas.
A maior festa agropecuária do município, custeada com recursos públicos e com entrada franca, virou vitrine eleitoral.
E não era um caminhão qualquer no desfile. O próprio trio elétrico que puxava a cavalgada carregava propaganda eleitoral e levava o prefeito Fábio Lasserre e os candidatos Magda Mofatto e Paulo Cézar Martins. Outros veículos adesivados, bandeiras e um enorme painel eleitoral completavam a cena.
A fala do prefeito tornou a mistura ainda mais explícita.
Durante o desfile, Fábio afirmou que “festa também é prioridade nossa”, agradeceu nominalmente a Paulo Cézar Martins e Magda Mofatto e associou os dois a ações na saúde e no asfalto. Ao falar dos gastos com a Expoapi, declarou: “Quando a gente se coloca pra fazer festa, a gente coloca pra gastar, colocar pra derreter.” Ao final, anunciou os números eleitorais dos candidatos, que este jornal opta por representar apenas como “#@%$&” e “@#$%”.
Não era apenas um cidadão manifestando preferência política. Era o prefeito fazendo campanha dentro de uma festa paga pela população.
Há outra questão importante nessa fala. Ao agradecer aos parlamentares pela ajuda à saúde e ao asfalto, cria-se uma relação de gratidão em torno de recursos que pertencem à sociedade.
Emenda parlamentar não é dinheiro do deputado. É dinheiro público. Há mérito do parlamentar na destinação, mas não se trata de doação pessoal ao município. Reconhecimento político é uma coisa; dívida eleitoral por dinheiro público é outra. Recurso público não tem padrinho. Tem origem: o contribuinte.
Também não convence tratar a Prefeitura como simples coadjuvante da Expoapi. Dias antes, em entrevista ao Jornal O+Positivo, o presidente do Sindicato Rural de Piranhas, Alexandro Moreira Leite, o Sandrinho, afirmou que ainda não poderia apresentar a programação porque as definições ainda precisavam ser discutidas com a Prefeitura.
E o contraste com outro episódio recente chama atenção.
Bruno Peixoto, presidente da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), esteve em Piranhas para uma reunião de sua campanha a deputado federal. Durante o encontro, servidores ligados ao município chegaram ao local e iniciaram um serviço de limpeza com sopradores e outras ferramentas. A poeira interferiu na reunião, houve discussão e foi necessária a presença da polícia para acalmar os ânimos e permitir a conclusão do ato.
Não há prova de que os servidores tenham recebido ordem para prejudicar a reunião. Seria irresponsável afirmar isso.
Mas o contraste é impossível de ignorar.
Para Bruno Peixoto, candidato fora do grupo político do prefeito, interferência de uma ação de servidores ligados ao município, discussão e polícia. Para os candidatos do prefeito, trio elétrico adesivado, bandeiras, veículos de campanha e o próprio prefeito anunciando números eleitorais na maior festa pública da cidade.
A régua precisa ser a mesma.
Fábio Lasserre tem todo o direito de escolher seus candidatos, apoiá-los e pedir votos. Mas precisa existir uma fronteira clara entre campanha e administração, entre interesse eleitoral e aquilo que pertence à coletividade.
Prefeito pode ter candidato. Festa paga pelo povo, não.
A Expoapi é de Piranhas. Não do prefeito. Não de deputado. Não de candidato.




