Opinião por João Santana: Quanto vale o seu voto?
20/08/2026, às 07h08

Tem gente que oferece dinheiro, outros favores, e há quem transforme até os direitos do cidadão em moeda para conquistar o voto.
Mas quanto vale? Uma consulta? Um exame? Uma cirurgia? Um atendimento no hospital quando a doença aperta e o cidadão precisa de uma solução?
“Mas saúde não é direito de todos e dever do Estado?”
É.
Mas, na política do favor, até direito vira moeda eleitoral.
E não é só na saúde. Vale agilizar a aposentadoria de quem trabalhou a vida inteira e já tem esse direito, mas esbarra na burocracia. Vale o patrolamento da estrada na zona rural. Vale a garantia de emprego para um familiar. Vale tijolo, cimento, telha. Vale um pedaço de asfalto na porta de casa.
Direitos, serviços públicos e até favores materiais entram na mesma engrenagem. O que deveria ser obrigação do poder público ou atendimento impessoal ao cidadão ganha dono, padrinho e cobrança política.
O direito vira favor. O favor vira dívida. E a dívida é cobrada na urna.
É aí que a máquina se alimenta.
A máquina tem obrigação de atender o cidadão. Mas, quando transforma obrigação em favor e favor em voto, usa aquilo que é público para produzir força política. E cada voto conquistado dessa maneira fortalece ainda mais a própria máquina.
A máquina gera voto. O voto fortalece a máquina. E a máquina fortalecida gera mais voto.
É um ciclo vicioso.
É o velho voto de cabresto vestido com roupa nova.
A máquina trabalha. A máquina pressiona. A máquina põe o cabresto, aperta a espora, marca e conduz. Como na velha lembrança da música: “gado a gente marca”. Com gente deveria ser diferente.
Deveria. Mas não é.
Nessa engrenagem cabe quase tudo. Sem ética. Sem escrúpulo.
O voto vale até atender ao pedido para instalar um pardal que depois vai multar o próprio eleitor.
Parece loucura.
Alguém pode votar em um candidato porque ele ajudou a colocar justamente o equipamento que amanhã poderá multá-lo?
Pode. Isso também vale voto.
Quando a política transforma qualquer providência pública em favor pessoal, o que interessa é produzir a sensação de dívida: “eu fiz por você; agora você faz por mim”.
E a conta não termina na eleição.
O candidato que recebe os votos produzidos pela máquina sabe de onde eles vieram. Quando estiver na Assembleia Legislativa ou no Congresso Nacional, a quem deverá fidelidade? Ao eleitor ou ao gestor que organizou sua votação?
O eleitor apertou o botão. Mas a dívida política ficou com outro.
O candidato recebeu o voto do cidadão, mas sabe quem colocou a máquina para trabalhar por ele. Depois de eleito, sua dívida política ficou com quem lhe entregou os votos.
E quem fica no meio disso?
O eleitor.
Por isso, é preciso romper essa engrenagem.
Não é porque o prefeito tem um candidato que ele precisa ser o seu candidato. Não é porque o vereador pediu que você precisa votar. Não é porque alguém da administração conseguiu uma consulta, uma cirurgia, agilizou um processo ou resolveu um problema que o eleitor passou a dever seu voto.
A máquina pública existe para servir ao cidadão. Ela não está fazendo favor quando cumpre sua obrigação.
Enquanto o eleitor votar para agradecer à máquina, continuará fortalecendo a própria máquina. Quanto mais forte ela fica, maior será sua capacidade de transformar direitos em favores e favores em votos.
Mas voto deveria valer outra coisa.
Liberdade.
Liberdade para escolher quem você acredita que realmente vai representar você.
Saúde não é favor. Aposentadoria não é favor. Serviço público não é favor.
São direitos.
O voto é seu. A escolha é sua.
Não vote no candidato da máquina porque a máquina mandou. Vote no seu candidato.
