Opinião: Políticos pedem mais radares e esquecem a educação no trânsito
Oito radares em apenas 90 quilômetros entre Piranhas e Iporá. Cinco foram instalados neste ano após pedidos de vereadores e deputados. Enquanto cresce a mobilização por mais fiscalização, falta o mesmo empenho para cobrar educação no trânsito, conservação da rodovia e investimentos permanentes na prevenção de acidentes
26/06/2026, às 19h06
Entre Piranhas e Iporá são aproximadamente 90 quilômetros de rodovia e oito radares. Isso significa, na prática, um equipamento de fiscalização a cada 11 quilômetros.
Cinco desses radares foram instalados neste ano, após pedidos públicos de vereadores da região e deputados estaduais junto à Goinfra. Essa mobilização política é conhecida. O que ainda não se vê com a mesma intensidade é uma mobilização semelhante para exigir educação no trânsito, campanhas permanentes de conscientização, melhor conservação da rodovia e investimentos em prevenção.
Na minha opinião, essa é uma inversão de prioridades.
Não acredito que a resposta para quase todo problema no trânsito seja instalar mais um radar. Se essa lógica fosse suficiente, bastaria encher as rodovias de equipamentos eletrônicos para eliminar os acidentes. Não é assim que funciona.
Quem percorre esse trecho sabe que o fluxo de veículos está longe de justificar uma rodovia transformada em um corredor de fiscalização. Se um dia o volume de tráfego exigir novas intervenções, o debate deveria ser sobre melhorias na infraestrutura, engenharia de tráfego e investimentos estruturais, e não sobre multiplicar radares.
Fiscalizar é necessário. O excesso é que precisa ser discutido.
Também é lamentável que, diante de tantos desafios, a principal resposta do poder público recaia sobre o bolso de quem utiliza a rodovia. O cidadão já paga IPVA, tributos sobre combustíveis e uma das maiores cargas tributárias do país. Em troca, espera estradas bem conservadas, sinalização visível, vegetação controlada, campanhas educativas e políticas públicas voltadas à prevenção. Punir quem desrespeita a lei é legítimo. Transformar a punição na principal estratégia de segurança, na minha avaliação, é inverter a lógica do papel do Estado.
Também causa estranheza que representantes políticos comemorem pedidos de novos radares como se isso fosse, por si só, uma conquista para a população. Eu preferiria ver essa mesma união cobrando limpeza da vegetação que encobre placas de sinalização, manutenção permanente da faixa de domínio, campanhas educativas nas escolas, melhoria da engenharia de tráfego e ações efetivas para reduzir acidentes.
É muito mais fácil pedir um radar do que construir uma cultura de respeito às leis de trânsito.
A multa muda o comportamento de quem reduz a velocidade diante de um equipamento. A educação muda o comportamento de uma sociedade inteira.
Por isso, continuo acreditando que vereadores e deputados deveriam concentrar seus esforços em prevenção antes de defender mais fiscalização eletrônica. O radar deve ser uma ferramenta de segurança, utilizada quando houver necessidade técnica comprovada, e não a principal vitrine de uma política pública de trânsito.
Quando representantes públicos se unem, espero vê-los unidos para pedir mais educação, mais engenharia, mais conservação e mais prevenção.
Porque um trânsito realmente seguro não se constrói com uma sequência de radares. Constrói-se com inteligência, responsabilidade e respeito ao cidadão.
João Santana
Cidadão piranhense, historiador, cientista político, publicitário, bacharel em Direito e diretor do Jornal O+Positivo.
















