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Editorial: Cemitério não é espaço urbano comum. É sagrado para as famílias brasileiras

O abandono, a falta de sensibilidade e os escândalos recorrentes revelam um problema grave em muitas cidades brasileiras: autoridades ainda não compreenderam o valor simbólico dos cemitérios para a população

29/05/2026, às 07h05

Foto do Cemitério Municipal de Piranhas publicada pelo Jornal O+Positivo em 2021

O maior erro de muitos administradores públicos brasileiros é tratar cemitério como área urbana comum. Não é. Para milhões de famílias, aquele chão é sagrado. Ali estão enterradas histórias, lembranças e vínculos que nem o tempo conseguiu apagar.

O caso recente envolvendo o cemitério municipal de Rio Verde apenas escancarou uma crise antiga e espalhada por dezenas de cidades brasileiras, inclusive no interior goiano. A falta de vagas existe. Mas o desgaste maior começa quando a administração ignora o valor emocional desses locais e tenta enxergar tudo apenas pela lógica burocrática.

Em Piranhas, por exemplo, a crise no cemitério municipal já atravessa décadas. A superlotação, a precariedade estrutural, a dificuldade de manutenção e a ausência de soluções definitivas fazem parte da realidade da população há mais de 30 anos. Gerações inteiras cresceram ouvindo que o problema seria resolvido. Enquanto isso, um novo cemitério começou a ser construído, mas segue sem conclusão definitiva, prolongando uma crise que atravessa sucessivas administrações.

E Piranhas está longe de ser caso isolado. Municípios como Iporá e várias outras cidades da região convivem há anos com dificuldades semelhantes. Cemitérios antigos, estruturas precárias e reclamações constantes da população formam um cenário que muitos gestores ainda insistem em tratar apenas como questão administrativa.

Mas não é.

Foto do Cemitério Municipal de Piranhas tirada em 2008 pelo Jornal O+Positivo

A cultura brasileira possui forte ligação emocional com os locais onde descansam pais, mães, filhos, irmãos e avós. Muitas pessoas visitam sepulturas durante décadas. Limpam túmulos, levam flores e mantêm naquele ambiente uma conexão profunda com quem partiu. Pode parecer apenas simbolismo para alguns gestores. Para a população, porém, isso tem valor real.

É evidente que muitos municípios enfrentam dificuldades graves. Há limitações urbanas, questões sanitárias e falta de planejamento histórico. Em alguns casos, ampliar áreas tornou-se praticamente impossível. Mas nenhuma dessas dificuldades autoriza abandono ou tratamento frio diante das famílias.

Em muitas cidades, os cemitérios se transformaram em territórios de abandono administrativo, irregularidades silenciosas e negócios clandestinos feitos em cima da dor alheia. A população convive há anos com denúncias de venda ilegal de sepulturas, favorecimentos internos, desaparecimento de registros e ausência de fiscalização efetiva.

O que deveria ser ambiente de respeito virou, em muitos municípios, retrato da incapacidade administrativa do poder público.

Enquanto isso, famílias encontram túmulos quebrados, mato alto, cruzes enferrujadas e sepulturas sem identificação.

O problema também passa pela precariedade de parte dos serviços executados nesses locais. Em diversos cemitérios brasileiros, trabalhadores atuam sem preparo adequado para lidar com situações extremamente delicadas. Quando isso acontece, o sofrimento das famílias aumenta ainda mais.

O poder público precisa compreender algo básico: eficiência administrativa não pode atropelar dignidade humana.

Foto do Cemitério Municipal de Piranhas tirada em 2008 pelo Jornal O+Positivo

Quando uma família encontra o túmulo de um ente querido abandonado ou cercado por denúncias de irregularidades, ela não enxerga apenas falha administrativa. Ela sente que a memória de quem amava está sendo ferida.

E isso gera indignação profunda.

Em vários municípios, o abandono dos cemitérios já deixou de ser apenas descuido. Virou normalização do desrespeito.

Os municípios brasileiros precisam modernizar urgentemente a gestão dos cemitérios, mas sem destruir aquilo que dá sentido a esses locais: o respeito e a preservação da memória.

Porque o brasileiro pode até compreender dificuldades estruturais. O que dificilmente aceita é o abandono da memória daqueles que ama.

Cemitério não é apenas terra ocupada.

Ali repousam histórias inteiras.

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