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Opinião

Opinião: O vídeo que Arenópolis não pode assistir?

Após declarações do prefeito Delmiro Cano durante a festa dos 44 anos de Arenópolis, a polêmica deixou de ser apenas sobre o que foi dito no palco e passou a expor um debate maior: existe liberdade para criticar o poder no município?

11/06/2026, às 14h06

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A democracia começa a adoecer quando o cidadão pensa duas vezes antes de expressar sua opinião. Não por falta de argumentos, mas por medo das consequências. Quando a crítica ao poder passa a ser acompanhada pelo receio de processos, denúncias, perseguições ou retaliações, o problema deixa de ser político. Passa a ser democrático.

É essa reflexão que a recente polêmica envolvendo o prefeito Delmiro Cano coloca sobre a mesa.

A controvérsia teve início durante as comemorações dos 44 anos de emancipação política de Arenópolis, realizadas em 14 de maio. Em um discurso feito no palco da festa, Delmiro Cano afirmou diante do público que “quem manda aqui em Arenópolis sou eu” e fez declarações políticas que rapidamente passaram a circular em vídeos gravados por participantes do evento. As imagens provocaram repercussão pelo conteúdo das falas e também pelo comportamento exibido pelo prefeito durante o discurso, amplamente comentado pela população nos dias seguintes ao evento.

O problema é que a polêmica deixou de ser apenas sobre o que foi dito.

Passou a ser sobre o direito de dizer que não gostou do que foi dito.

O vídeo registra um fato público ocorrido durante a principal celebração cívica do município, diante de centenas de pessoas. Ainda assim, a divulgação das imagens e as críticas ao episódio passaram a ser acompanhadas por ameaças de processos, denúncias, pressões e possíveis retaliações contra quem se manifesta.

Esse é o verdadeiro centro do debate.

Não se trata de ser governo ou oposição. Não se trata de gostar ou não gostar do prefeito. Trata-se do direito que qualquer cidadão possui de assistir a um fato público, formar sua opinião e expressá-la livremente.

Arenópolis possui menos de três mil habitantes e mais de três mil e quinhentos eleitores. Em municípios pequenos, o peso da opinião pública é diferente. Quase todos se conhecem. Relações familiares, profissionais, comerciais e políticas se cruzam diariamente. A política não fica apenas na Prefeitura ou na Câmara Municipal. Ela está na praça, no comércio, nas igrejas, nos grupos de mensagens e nas conversas do dia a dia. O poder público está presente na rotina das pessoas de forma muito mais intensa do que nos grandes centros.

Por isso, qualquer ambiente de intimidação produz efeitos maiores.

Quando uma pessoa deixa de falar por medo, perde a pessoa.

Quando várias pessoas deixam de falar por medo, perde a comunidade.

E quando a crítica passa a ser tratada como um problema, quem perde é a democracia.

É evidente que toda pessoa possui direito à honra e à proteção contra acusações falsas. A lei existe para isso. Mas existe uma diferença fundamental entre combater uma mentira e tentar constranger o debate sobre um fato que aconteceu diante de toda a cidade.

A liberdade de expressão não foi criada para proteger elogios. Elogios raramente precisam de proteção. Ela existe para proteger o direito de questionar, fiscalizar, discordar e cobrar.

A questão central, portanto, já não é apenas o conteúdo das declarações de Delmiro Cano durante a festa de aniversário de Arenópolis, nem o comportamento exibido pelo prefeito no palco naquela noite.

A verdadeira questão é saber se os moradores de Arenópolis sentem-se verdadeiramente livres para dizer o que pensam.

Governantes passam.

Mandatos terminam.

Partidos mudam.

O direito de falar, criticar e discordar, não.

Se um vídeo público pode ser assistido, mas não pode ser comentado, a discussão já não é sobre o vídeo.

É sobre a democracia.

João Santana
Cidadão arenopolino, historiador, publicitário, bacharel em Direito e editor do Jornal O+Positivo

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