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Opinião

Opinião: A reação que alimenta o enredo

Ao tentar combater a alegoria da família em conserva, críticos acabam impulsionando exatamente a narrativa que dizem rejeitar

18/02/2026, às 18h02

No ambiente digital contemporâneo, indignação é combustível. Plataformas não distinguem apoio de crítica. Elas medem interação. E interação significa alcance.

Quando uma ala da escola de samba Acadêmicos de Niterói levou à avenida a imagem de famílias dentro de latas, sob o rótulo de neoconservadores, o gesto foi simbólico, provocativo e politicamente calculado. O que veio depois foi previsível: reação imediata nas redes sociais, especialmente de parlamentares e influenciadores ligados ao segmento evangélico e conservador.

Mas há um ponto estratégico ignorado no calor da disputa.

Cada repost indignado, cada vídeo de revolta, cada comentário denunciando ataque à família multiplica a exposição da imagem original. O algoritmo não lê intenção moral. Ele identifica volume, engajamento e polarização. E amplia.

Quem compartilha para criticar está distribuindo gratuitamente a peça de comunicação da escola. Está financiando com atenção aquilo que diz combater.

No ambiente digital, silêncio estratégico muitas vezes produz mais efeito do que confronto emocional.

Há ainda um segundo aspecto. Ao reagir com intensidade, o segmento reforça a moldura narrativa proposta pela própria alegoria: a de que se trata de um grupo rígido, reativo e permanentemente mobilizado. A reação confirma o enredo.

Isso significa que não houve provocação. Evidentemente houve. Alegorias carnavalescas historicamente carregam crítica social. O carnaval brasileiro ironiza poder, religião, costumes e política.

A questão aqui não é estética. É estratégica.

Se a intenção da escola era provocar debate e gerar repercussão, a missão foi cumprida. Se a intenção de seus críticos era neutralizar a mensagem, a estratégia adotada pode ter produzido o efeito contrário.

No jogo político contemporâneo, quem controla a narrativa não é apenas quem cria o símbolo, mas quem decide como reagir a ele.

E no campo dos algoritmos, indignação organizada costuma ser o maior impulsionador de alcance.

A pergunta que permanece é objetiva: a reação foi defesa de valores ou amplificação involuntária de marketing político.

João Santana é historiador, publicitário, bacharel em Direito e editor do Jornal O+Positivo

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