“A verdade sobre emenda parlamentar e o seu voto“. Leia o novo artigo de João Santana
Sete parlamentares somaram apenas 603 votos em Piranhas e destinaram R$ 2,91 milhões, quase o mesmo valor destinado pelo parlamentar que recebeu 3.554 votos
29/09/2026, às 20h09
“Tem que votar nele porque mandou muito dinheiro para Piranhas.”
Então veja esta conta: sete parlamentares somaram apenas 603 votos no município e, mesmo assim, destinaram R$ 2.910.747,02. O parlamentar de maior votação entre os analisados recebeu, sozinho, 3.554 votos e destinou R$ 3.254.310.
São 603 votos contra 3.554. R$ 2,91 milhões contra R$ 3,25 milhões.
Os sete tiveram apenas 17% daquela votação e chegaram a 89,4% daquele volume de recursos. Dois deles não tiveram sequer um voto em Piranhas.
Essa matemática coloca em xeque a ideia de que o eleitor fica devendo voto porque determinado parlamentar destinou emenda ao município.
Para fazer a comparação, considerei os votos recebidos para deputado estadual em Piranhas nas eleições de 2018 e 2022 e os recursos destinados ao município entre 2018 e 2026.
Paulo Cezar Martins, referência da comparação, recebeu 2.070 votos em 2018 e 1.484 em 2022, totalizando 3.554. No período analisado, destinou R$ 3.254.310 ao município, equivalentes a R$ 915,68 por voto.
A diferença aparece com mais força ainda nos demais números.
Clécio Alves recebeu apenas 24 votos e destinou R$ 310.747,02. São R$ 12.947,79 por voto.
Lissauer Vieira recebeu 73 votos e destinou R$ 750 mil. São R$ 10.273,97 por voto.
Lucas do Vale teve 131 votos e destinou R$ 950 mil. São R$ 7.251,91 por voto.
Rosângela Rezende recebeu 162 votos e destinou R$ 400 mil. São R$ 2.469,14 por voto.
Bia de Lima teve 213 votos e destinou R$ 250 mil. São R$ 1.173,71 por voto.
Cristóvão Tormin e Alysson Lima tiveram zero voto em Piranhas no recorte analisado. Ainda assim, Cristóvão destinou R$ 200 mil e Alysson, R$ 50 mil.
Zero voto. E teve emenda.
Os números são claros: uma grande votação anterior não foi necessária para que recursos chegassem a Piranhas.
Isso não diminui a importância de quem destinou recursos ao município. Emenda pode, sim, entrar na avaliação do trabalho de um parlamentar. O que não cabe é transformar dinheiro público em dívida eleitoral.
Quando alguém disser “tem que votar porque mandou emenda”, vale lembrar a conta:
3.554 votos: R$ 3,25 milhões.
603 votos: R$ 2,91 milhões.
17% dos votos: 89,4% dos recursos.
Teve parlamentar com 24 votos que destinou mais de R$ 310 mil, com 73 votos que destinou R$ 750 mil e com 131 votos que destinou R$ 950 mil. E teve parlamentar que, mesmo com zero voto, também destinou recursos.
Emenda pode entrar na avaliação do mandato. Mas não é favor pessoal e não gera obrigação eleitoral.
Emenda é dinheiro público.
Voto é escolha.
João Santana
Cidadão piranhense, historiador, publicitário, bacharel em Direito e editor do Jornal O+Positivo
