Opinião por João Santana: Em Iporá, o poder continua vencendo a cidade
Enquanto grupos políticos se fortalecem e se reorganizam, a população continua convivendo com deterioração urbana, frustração administrativa e problemas antigos
13/05/2026, às 07h05
O eleitor de Iporá precisa começar a enfrentar uma pergunta incômoda:
quem realmente está ganhando com esse modelo político que domina o município há mais de uma década?
Porque olhando friamente para os fatos, uma coisa chama atenção:
os grupos seguem se reorganizando e ampliando influência política.
Mas a população continua convivendo com ruas tomadas por buracos, iluminação pública precária, trânsito desorganizado, problemas na saúde pública, estradas rurais deterioradas e sensação constante de abandono.
Desde 2012, Iporá vive eleições marcadas por campanhas emocionais, alianças inesperadas, divisões estratégicas e rearranjos constantes.
Enquanto isso, a população continua discutindo praticamente as mesmas coisas: buracos, saúde pública deficiente, iluminação precária, trânsito desorganizado, abandono urbano, baixa eficiência administrativa e desgaste da estrutura pública.
Em 2012, Danilo Gleic, um candidato praticamente desconhecido, venceu uma eleição poucos dias após assumir uma chapa depois do impedimento da candidatura de Naçoitan Leite.
A promessa era modernização administrativa, infraestrutura, recapeamento e reorganização da cidade.
Mas o resultado ficou muito abaixo da expectativa criada durante a campanha. A gestão Danilo terminou desgastada, com baixa aprovação e forte frustração popular.
Quatro anos depois, mesmo diante daquele cenário, Naçoitan voltou ao poder em uma campanha marcada por polarização, acirramento eleitoral e episódios que até hoje permanecem na memória política da cidade.
A reta final daquela eleição foi tomada por material apócrifo espalhado pelo município, incluindo o episódio do helicóptero lançando papéis sobre as ruas de Iporá. O episódio virou símbolo da radicalização política daquele período e marcou profundamente a disputa eleitoral.
A gestão seguinte também chegou ao fim cercada por desgaste administrativo e baixa aprovação popular.
Mesmo assim, em 2020, a reeleição aconteceu.
E talvez seja exatamente aqui que mora uma das reflexões mais duras da política iporaense recente:
a estratégia eleitoral parece ter falado mais alto que a avaliação administrativa.
Mesmo com a administração enfrentando forte desgaste, a divisão da oposição acabou mudando o rumo da disputa.
A candidatura de Leo Contador fragmentou votos importantes da oposição.
Ao mesmo tempo, Maysa Cunha agregou força decisiva ao grupo então no poder, especialmente junto ao eleitorado evangélico e setores onde possuía ampla aceitação.
O resultado foi a permanência do mesmo grupo no comando da cidade.
Entre 2016 e 2024, a política iporaense ainda foi marcada por operações policiais, prisão de secretários municipais e investigações envolvendo suspeitas de desvio de recursos públicos, fraudes em licitações e outros possíveis crimes contra a administração pública.
Mas, com o passar dos anos, as alianças políticas em Iporá passaram a funcionar menos como projetos administrativos e mais como etapas de fortalecimento de trajetórias eleitorais e construção de influência política.
Maysa Cunha, ao aceitar compor como vice em 2020, também passou a integrar politicamente uma administração que já enfrentava desgaste público, investigações e forte rejeição administrativa. Ao mesmo tempo, cresceu eleitoralmente dentro daquela própria estrutura até chegar à prefeitura.
Mais tarde, o movimento se repetiu com Léo Contador. Depois de disputar a eleição de 2020 em separado, ajudando a dividir a oposição, Léo optou por compor com Maysa em 2024, mesmo diante de um cenário político já desgastado e cercado de críticas administrativas.
No fim, a sensação que fica para parte da população é que as trajetórias pessoais de poder continuam avançando enquanto a cidade segue convivendo com os mesmos problemas urbanos e administrativos.
O que inicialmente parecia apenas composição eleitoral acabou produzindo sucessões políticas dentro do mesmo ambiente político.
Os grupos mudam de lado. Mas as ruas continuam esburacadas, a iluminação pública segue precária, as estradas rurais permanecem deterioradas e os problemas da saúde pública continuam fazendo parte da rotina da população.
E enquanto projetos pessoais se fortalecem eleitoralmente, a população continua acumulando frustração administrativa.
E talvez seja exatamente aqui que o eleitor precise refletir com mais firmeza.
A política de Iporá virou apenas um jogo de sobrevivência eleitoral e construção de projetos de poder?
Porque uma coisa parece evidente:
muitos movimentos deram certo para os grupos envolvidos.
Houve crescimento eleitoral, ampliação de espaço, fortalecimento político e consolidação de lideranças.
Mas a população continua esperando que algum governo coloque a cidade acima dos projetos de poder e enfrente problemas que há anos seguem presentes no cotidiano urbano de Iporá.
Talvez tenha chegado a hora de o eleitor parar de votar apenas pela emoção do momento, pela narrativa da campanha, pelo medo do adversário ou pelos movimentos calculados dos grupos políticos.
E começar a votar olhando o histórico administrativo, a coerência, a capacidade de gestão, o compromisso real com resultados e principalmente o impacto concreto causado na vida da população.
Quando o eleitor deixa de cobrar resultado, o poder aprende que pode continuar mudando de rosto sem precisar mudar a realidade da cidade.
João Santana é historiador, publicitário, bacharel em Direito e editor do Jornal O+Positivo
