Editorial: Quando quase R$ 4 milhões não limpam a cidade
Contrato milionário de limpeza urbana contrasta com calçadas tomadas por carrapicho no centro
28/01/2026, às 09h01
A Prefeitura de Piranhas mantém um contrato anual de R$ 3.911.000,00, valor que se aproxima de R$ 4 milhões por ano, para a execução de serviços de limpeza urbana. O objeto está claramente descrito: capinação, roçagem, varrição, manutenção de passeios públicos e conservação dos espaços urbanos.
No papel, a cidade deveria estar limpa.
Na prática, não está.
Registros feitos no centro da cidade, na Avenida Caiapó, mostram carrapicho espigado ocupando a calçada, comprometendo o passeio público e expondo pedestres ao risco de ferimentos. Não se trata de área periférica, nem de situação pontual. É o coração da cidade, onde a manutenção deveria ser permanente e exemplar.
O problema se torna ainda mais evidente diante de um segundo fato, igualmente público: mesmo com o contrato em vigor e sendo pago mensalmente, o município segue utilizando máquinas, servidores e estrutura própria para realizar mutirões de limpeza. Em algumas ocasiões, essas ações contam com a participação direta do prefeito e são divulgadas como esforço da gestão.
É aqui que surge a contradição.
Se o serviço está contratado e pago, por que o município precisa executar o mesmo trabalho com recursos próprios?
E, mais grave: por que, mesmo com dois braços atuando, a cidade continua suja?
Não se questiona o valor simbólico de mutirões nem o engajamento pessoal de gestores. O ponto é outro e mais objetivo: há um descompasso evidente entre o valor pago, o serviço contratado e o resultado entregue à população.
Quando o passeio público do centro permanece tomado por vegetação espinhosa, não se trata apenas de descuido estético. Trata-se de falha de gestão, de fiscalização e de acompanhamento contratual. Alguém mede esse serviço. Alguém atesta. Alguém autoriza o pagamento.
E é exatamente aí que o debate precisa avançar.
A função do poder público não é pagar caro para depois complementar com esforço próprio. É contratar bem, fiscalizar melhor e garantir resultado. Se o serviço é executado parcialmente, o pagamento integral precisa ser explicado. Se o município executa aquilo que já pagou, a duplicidade precisa ser justificada.
Este editorial não acusa. Mas cobra.
Cobra transparência, eficiência e respeito ao dinheiro público.
Porque limpeza urbana não é favor, mutirão ou campanha.
É obrigação contratada, paga e devida à população.
O centro da cidade mostra o que os números escondem.
