Editorial: Quando a mentira não se sustenta
Versões isoladas, contradições públicas e o silêncio sobre as 23 diárias acumuladas pelo presidente da Câmara ao longo de 2025
13/12/2025, às 18h12

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda impureza. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade.”
Mateus 23:27–28
Em vídeo divulgado nas redes sociais, o presidente da Câmara Municipal de Piranhas, vereador Silas Messias, afirmou que nunca houve reuniões em seu gabinete para tratar de matérias de interesse do Executivo e acusou este editor de mentir ao relatar articulações fora do plenário.
A negativa, porém, produz um efeito que vai além da tentativa de desqualificação pessoal. Ao sustentar essa versão, o presidente não confronta apenas um jornalista. Ele desmente vereadores que estiveram presentes, participaram das conversas e testemunharam os encontros. Quando uma narrativa se isola diante de múltiplos relatos, ela passa a depender exclusivamente da palavra de quem a sustenta. E versões assim raramente resistem ao tempo.
Na vida pública, negar não basta. Declarações precisam se sustentar em fatos, registros e testemunhos. Quando isso não ocorre, o discurso se fragiliza. A verdade não exige esforço permanente para se manter. A mentira, sim.
Causa ainda mais estranheza quando a negativa vem acompanhada de discurso moral. O cristianismo, frequentemente invocado como referência ética, não relativiza a hipocrisia. Ao contrário. Ela é condenada de forma direta nas Escrituras, especialmente quando há distância entre o que se diz em público e o que se pratica nos bastidores. Fé, na tradição cristã, pressupõe coerência.
A própria Bíblia ensina que o homem de dois pensamentos é inconstante em todos os seus caminhos e não prospera. A duplicidade pode até produzir efeitos imediatos, mas cobra seu preço. Na política, esse preço costuma se traduzir em perda de credibilidade.
Se há disposição para gravar vídeos negando fatos, também deveria haver para prestar contas de atos objetivos. Os registros oficiais mostram que, ao longo de 2025, o presidente da Câmara Municipal de Piranhas, Silas Messias, acumulou 23 diárias em seu nome. Os dados são públicos e constam nos portais de transparência. Os valores variam, em média, entre R$250,00 e R$400,00, com predominância de R$300,00.
Esses valores, inclusive, superam os praticados pelo presidente da Câmara de Iporá, município maior e com estrutura administrativa mais ampla. Trata-se de comparação objetiva, baseada em dados oficiais, que reforça a necessidade de esclarecimento.
A cobrança, portanto, é legítima e objetiva. Transparência não pode ser seletiva. Não serve apenas para negar versões ou reagir a críticas. Serve, sobretudo, para explicar números, justificar critérios e prestar contas à população.
Quando a palavra pública se distancia dos fatos, o discurso perde força. E quando isso acontece, não é o jornalista que precisa se explicar. É o poder.
João Santana
Cidadão piranhense, historiador, publicitário, bacharel em Direito e editor do Jornal O+Positivo
